Truta, a rainha das montanhas e dos cardápios

Truta, a rainha das montanhas e dos cardápios

Quem visitou cidades na região da Serra Mantiqueira sabe: a truta é a estrela de dez entre dez restaurantes. Não é diferente em Penedo, bairro ao pé da serra, em Itatiaia (RJ). Ali, até as hamburguerias e churrascarias servem trutas. 

O peixe de água doce caiu no gosto popular nos últimos anos, e parece que vai se garantir como destaque mesmo fora dos restaurantes das regiões serranas. Hoje a truta também se faz presente nos cardápios dos grandes centros urbanos. 

Há quem pense que a espécie é nativa das nossas águas, mas ela só veio parar nos rios brasileiros a partir de 1947, quando Ascânio de Faria, a serviço do Ministério da Agricultura, importou 5 mil ovos de truta arco-íris dos criadouros de Esbjerg, na Dinamarca.

E, apesar dos ovos oriundos da Europa, a truta arco-íris é de origem norte-americana. Ganhou o mundo porque é de fácil adaptação. 

Entre 1947 e 1950 foram despejados nos rios e riachos da Serra da Bocaina 16.500 alevinos. Já em 1953, foram capturados na região exemplares com dois quilos e 59 centímetros de comprimento. 

Apesar dos rios que cortam a Serra da Bocaina terem servido de berço, na Serra da Mantiqueira a truta se sentiu em casa. A principal razão é que, por ter montanhas mais altas, a Mantiqueira tem rios e riachos mais frios durante mais tempo – e a truta só sobrevive em águas com temperatura abaixo de 20 graus. “De Serra Fina (região de Passa Quatro, em Minas), passando por Campos do Jordão até Juiz de Fora, você tem águas limpas e condições para a criação de truta”, avalia o agrônomo Miguel Augusto Monte, que há 30 anos é criador de trutas. 

“Aqui temos muitos restaurantes servindo truta porque estamos no meio da região produtora, então você pode escolher os produtores que têm capricho e consegue um bom produto, com preço razoável e atendimento constante”, explica Monte, que criou trutas em Bocaina de Minas por oito anos. 

Há 22 anos, ele se mudou para Resende e abriu o restaurante Truta Viva, um dos mais badalados de Penedo.

Segundo ele, boa parte dos criadores do peixe na Serra da Mantiqueira é formada por ex-produtores de leite, que viram o preço do produto despencar e os pastos ficarem exauridos. A comercialização da truta se mostrou uma alternativa econômica interessante para eles. Hoje, a maior parte dos cerca de 200 criadores de truta do país está situada na região Mantiqueira.

A Dutra, entre as serras    

E o que a Dutra tem a ver com isso tudo?

“A Dutra está exatamente dentro da região produtora, que fica entre a Serra da Bocaina e a Serra da Mantiqueira. Ela é importantíssima para os criadores de truta porque o pessoal que vem de Minas desce em Engenheiro Passos e faz a distribuição da truta para Rio e São Paulo pela Dutra”, diz Monte. 

Atualmente, a clientela de Miguel Monte é formada por 80% de turistas e 20% de moradores locais. “A truta é um peixe nobilíssimo, ela tem um sabor absolutamente suave e aceita vários tipos de preparação. Se você quiser fazer uma truta frita passada no fubá, como o pessoal da roça faz, ela fica maravilhosa; se você quiser fazer um molho de uva sofisticado com champanhe, ela aceita também”, analisa Monte. 

Atualmente, o único peixe a fazer concorrência com a truta é a tilápia, que você também encontra à beira da Dutra, na região de Piraí (RJ). Ali a tilápia ganhou um lar e até mesmo um festival anual – que divide com outra rainha do pedaço, a noz macadâmia. Curiosamente, assim como sua rival de cardápio, a tilápia também não é da serra fluminense – sua origem são as águas do rio Nilo, na África. É como escreveu Pero Vaz de Caminha em sua primeira carta sobre os nossos rios: “Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.”