Tradição tropeira – a origem da Dutra

Tradição tropeira - a origem da Dutra

Diante do fogão a lenha, Wellington Galvão prepara o café de tropeiro para a reportagem. Quando a água misturada ao pó começa a ferver, ele mergulha a ponta de um galho de goiabeira em brasa. “A brasa faz com que o pó assente no fundo do bule”, explica o amigo Marco Antônio, o Davó, com um carregado sotaque da Mantiqueira (algo entre o caipira paulista e o mineiro).

Há dez anos, Wellington e Davó se dedicam ao Museu do Tropeiro, uma coleção de peças ligadas à memória cultural dos viajantes. O material é exibido em escolas, feiras e festas. São arreios, canastras, selas, apetrechos de cozinha, couros, sinos, roupas. Acervo guardado naquela casa de taipa, no sítio onde Wellington cria muares, em Guaratinguetá. 

O tropeiro era o cidadão que tinha uma tropa de animais para fazer serviços internos da propriedade. Também alugavam os animais - seis ou oito burros - para viajar e transportar mercadorias, pelos estradões do Brasil afora. Diferente do muladeiro, que comercializava animal, vendia e amansava, ou do boiadeiro, que tocava bois em vez de burros.

Wellington, de 43 anos, é comerciante e há 25 anos se dedicada à cultura tropeira. Seu interesse começou aos 15, quando passou cavalgar muares com os poucos tropeiros ainda vivos à época. “Ia ouvindo as histórias, daí eles me davam umas peças, com o tempo fui adquirindo outras”, conta. Ele lembra da primeira peça que obteve: um peitoral de argola de prata.

Davó, 56 anos, é descendente de tropeiros, nascido no bairro dos Pilões, nas escarpas da Mantiqueira, um daqueles lugares onde até pouco tempo só se chegava cavalgando. Os dois se conheceram naqueles passeios. “Um dia a gente notou que não tinha mais quem contasse essa história dos tropeiros, quem cuidasse da memória”, diz Davó. Aí tiveram a ideia de criar o museu. 

Para surpresa de ambos, foi grande o interesse das pessoas pelo que eles tinham para mostrar. Passaram a ser convidados para feiras agropecuárias, festas de peão e exposições. “A gente recebe muito convite para fazer festa de rodeio. Nosso foco é mesmo a difusão cultural, como organizamos nas escolas”, diz enfatiza Wellington.

Durante os eventos, além de expor as peças, a dupla prepara receitas típicas, como o café e o feijão de tropeiro. O plano para o futuro é transformar a casa de taipa em sede para visitação do público. “Hoje a dificuldade é a manutenção e a segurança do acervo. São muitas peças em prata, parte de riqueza dos patrões que iam montados”. 

Cidades brotando dos pousos

Wellington lembra que boa parte das cidades que margeiam a Dutra nasceram a partir de pouso de tropeiros. “Eles percorriam cerca de três a quatro léguas por dia. Se você reparar, essa normalmente é a distância entre as cidades do Vale do Paraíba”, afirma. De fato, é consenso entre estudiosos que os caminhos traçados pelos tropeiros nos séculos 18 e 19 serviram como base para a maioria das estradas do Sul e do Sudeste.

Segundo a professora Cleuza Barbosa de Freitas Carpegeani em seu estudo Caminho das Tropas: A Importância da preservação histórica e cultural como meio de preservação ambiental no Vale do Paraíba, “nas rotas tropeiras foram estabelecidos pousos para descanso e troca de montarias, além de pernoite para os viajantes, que, com o tempo, se transformaram em núcleos de várias cidades”. Guaratinguetá, por exemplo, era o principal eixo das rotas oeste-leste (ligando Minas e o litoral) e norte-sul (do Rio para São Paulo).  

O café está pronto. Wellington apanha quatro canequinhas de ágata e derrama o conteúdo fumegante do bule. O café tem um gosto defumado com um leve toque de goiaba. “Esse gosto vem da madeira usada para fazer a brasa; os tropeiros tinham preferência pelo galho de pitangueira”, ensina Davó. Wellington, pega sua xícara, senta-se num banco sob a janela de madeira e acende um cigarro de palha. Um dos jovens burros relincha no curral alguns metros adiante. Mais tropeiro, impossível.