Penedo, a Finlândia dos Trópicos

Penedo, a Finlândia dos trópicos!

Antiga colônia agrícola naturalista, fundada por imigrantes escandinavos no final dos anos 20, se transformou em atração turística às margens da Dutra.

Penedo, distrito de Itatiaia (RJ), no km 131 da Via Dutra, abriga a única colônia finlandesa do Brasil. O lugar ganhou fama nacional a partir de 1998, quando foi inaugurada por ali a badalada Casa de Papai Noel. É, bem longe da Lapônia, no meio da calorenta paisagem tropical. O número de visitantes cresce a cada ano.

A colônia agrícola, que nasceu ainda no final dos anos 20, já era na década de 50 um ponto turístico conhecido por moradores da região. Depois da chegada do Bom Velhinho, gente chega de todo canto, o ano todo. E quem passa pelo distrito se encanta com os traços arquitetônicos típicos e a cultura preservada. 

Tudo começou em 1927. Depois de uma noite intranquila, Toivo Uuskallio (pronuncia-se Ôscalio), um professor de agricultura, amanheceu com um propósito: deixar sua terra, a gélida Finlândia, e fundar uma comunidade religiosa naturalista vegetariana no Hemisfério Sul.

Em meados daquele mesmo ano, Uuskallio, que vivia na Carélia, região leste do país, embarcou para o Brasil acompanhado da esposa Liisa e mais três companheiros. 

O quinteto passou algumas semanas no Rio de Janeiro, até ser contratado para trabalhar em uma das propriedades do Mosteiro de São Bento, a Fazenda Três Poços, nas proximidades de Resende. Sabendo que Uuskallio procurava terras para criar um assentamento, a direção do mosteiro lhe ofereceu outra de suas propriedades, a Fazenda Penedo. Uuskallio gostou do que viu e voltou para a Finlândia para angariar fundos e recrutar voluntários.

Lá, o professor tentou seduzir finlandeses a se mudarem para o paraíso: um país belíssimo, verde, quente, ao Sul do Equador. E conseguiu. Em 28 de janeiro de 1929, a Fazenda Penedo foi comprada e logo depois chegou a primeira leva de migrantes. Não há um registro oficial de quantos foram, mas uma foto do primeiro casamento na colônia, em 26 de outubro de 1929, registra 88 pessoas. Mulheres, homens, crianças e bebês de colo posavam em suas melhores roupas.

A artista plástica Eila Ampula, que chegou com 10 anos de idade na primeira leva de peregrinos, descreve Uuskallio em seu livro de memórias: “Este nosso líder tinha ideias originais. Uma pessoa carismática, bonita, de olhos azuis, penetrantes, sempre elegante, de terno de linho branco. Falava bem, convencia qualquer um”, diz.

A comunidade utópica

As regras da comunidade de Uuskallio eram bastante rígidas: nada de bebidas alcoólicas, café ou carne. Sexo só para fins reprodutivos. O nudismo era praticado no dia a dia, mesmo durante as tarefas agrícolas. Mas não demorou muito, e o sonho de vida alternativa começou a se desfazer.

A primeira meta a cair por terra foi o nudismo. Houve, por um breve período, a tentativa de trabalhar no campo do jeito que se veio ao mundo, mas o sol tórrido, as muriçocas e as mutucas mudaram os planos. Não dava pra ficar sem roupa.

Outra dificuldade foi com o cultivo agrícola. O solo da fazenda, outrora uma grande produtora de café, estava exaurido e em suas encostas crescia apenas capim. Mas nem de pasto servia, já que Uuskallio só aceitou comprar a fazenda com o certeza de que o gado seria retirado de lá. Os colonos, então, eram obrigados a buscar leite diariamente para as crianças na fazenda vizinha. 

O idealismo radical de Uuskallio também sofreu um duro golpe quando aquela turma que havia chegado ali ainda criança começou a entrar na adolescência. “Os jovens não queriam saber daquilo; eles subiam o morro do Penedinho para fazer café e comer churrasco escondidos”, conta Timo Aaltonen, que chegou ao Brasil em 1947, aos seis anos.

Engenheiro aposentado, Aaltonen faz parte de uma leva de imigrantes pós-guerra que veio para o Brasil com os pés no chão. Naquela época, muitos dos primeiros colonos haviam ido embora e os poucos que ficaram tinham abandonado as propostas de Uuskallio.

“A minha mãe já havia estado aqui em 1934 ou 35; trabalhou na embaixada finlandesa. Ela já tinha se encantado com o Brasil. E convenceu o meu pai, que era fotógrafo, a vir para cá. Também não deve ter sido muito difícil: meu pai viu a guerra de perto”, lembra Aaltonen. Um estudo de 2017 calcula que vieram ao todo 321 finlandeses para Penedo. Hoje há cerca de 160 remanescentes. 

As laranjeiras, os ovos, o clube

No início dos anos 1940, a utopia agrícola-naturalista tinha chegado ao fim. A colônia chegou a plantar mudas de laranjeiras para vender aos produtores do sul fluminense. Mas com a Segunda Guerra, os países da Europa, principais consumidores da laranja brasileira, pararam de comprar as frutas e o mercado entrou em colapso.

Foi naquele período que parte da comunidade da fazenda resolveu criar uma cooperativa para estimular a produção de ovos. Começou a construção da Casa da Associação, que seria a sede. Mas, em 1942, Uuskalio vendeu boa parte das terras da Fazenda Penedo para um grupo suíço, que pretendia estabelecer no local o cultivo de espécies vegetais para uso medicinal.

Com a demanda por mão de obra, os moradores preferiram trocar a avicultura pelo plantio de eucaliptos. Um ano depois, em 1943, o que deveria ser a Casa da Associação se transformou no Clube Finlândia, até hoje o principal espaço de preservação da cultura escandinava em Penedo.

 


“O clube era onde os finlandeses se reuniam depois de uma semana inteira de trabalho. Hoje, ele atrai gente do Brasil inteiro e até de outros países. Em 2018, tivemos cerca de 1.700 pagantes e em 2019 esse número já saltou para cinco mil”, conta Oswaldo Castro, presidente do clube.

“Hoje fazemos um baile todo primeiro sábado do mês, em feriados nacionais do Brasil e em datas festivas finlandesas, como o Vappu, no dia 1º de maio, quando começam as temperaturas mais leves, a estação das flores e eles saem para fazer festa nas ruas e nos parques. Também tem o Juhannus, tipo o solstício de verão deles, que coincide com a nossa festa junina. E tem uma comemoração no final do ano, que é o Pikkujoulu, uma comemoração das crianças para o Papai Noel.”

Museu e biblioteca

O clube abriga também o Museu Eva Hilden. Migrante da primeira leva, Eva Hilden costumava exibir em sua loja os artefatos típicos da Finlândia. Com o tempo, seus conterrâneos finlandeses e os descendentes passaram a ceder peças, chegando a um volume tão grande que Eva se viu obrigada a arrumar um espaço para colocar todo o material.

Hoje, o museu abriga desde exemplares de pukkos (a típica faca finlandesa, que era quase obrigatória para os homens) até um boné autografado pelo piloto de Fórmula-1 Kimi Raikkonen, passando por tapeçarias, roupas tradicionais de diferentes regiões do país e brinquedos. Anexo ao museu está a biblioteca Alva Fagerlande, um espaço simples, cujas estantes lembram a biblioteca de um colégio, mas que abriga cerca de 8 mil volumes em finlandês e outros idiomas.

Incentivo ao turismo

Oswaldo Castro, presidente do Clube Finlândia, é um bom exemplo do Penedo contemporâneo: natural da capital fluminense, ele e o irmão, João Pedro, passaram boa parte da infância e juventude frequentando a vila e os bailes do clube. Hoje eles fazem parte do conselho administrativo e turístico de Penedo.

João Pedro é, além de diretor e conselheiro do clube, administrador da Pequena Finlândia, um shopping ao ar livre cujo complexo de lojas emula a arquitetura finlandesa. É dentro da Pequena Finlândia que está a Casa do Papai Noel, uma popularíssima atração durante o período natalino, mas que fica aberta durante o ano inteiro.

Tanto a Pequena Finlândia quanto a Casa do Papai Noel foram criadas como parte de um planejamento turístico que visava ao mesmo tempo modernizar e reforçar a herança nórdica de Penedo. A índole turística, contudo, é bem anterior: começou ainda nos anos 1930.

Com a dispersão dos pioneiros, o casarão, administrado por Liisa Uuskallio se transformou em hospedaria para pessoas que vinham da capital do Rio, principalmente.
Em pouco tempo, outros pioneiros também passaram a se adaptar para receber os turistas, que eram atraídos tanto pelas belezas naturais do local, quanto pela cultura nórdica.

Na época, o turismo só não se desenvolveu mais rapidamente em Penedo devido às dificuldades de deslocamento. “O único acesso para Penedo era via trem. A estação ficava a 13 quilômetros de distância. Os colonos iam buscar os hóspedes de carroça. Ou eles tinham que vir a pé”, diz Timo Aaltonen.
Tudo mudou em 1951, com a inauguração da Via Dutra. A partir de então o turismo teve um crescimento exponencial e passou a atrair, além de cariocas, os moradores do Vale do Paraíba.

Hoje, o turismo explodiu. Penedo recebe cerca de 3 mil visitantes por fim de semana, chegando a seis mil nos feriados. E se não se transformou no Éden utópico de Toivo Uuskallio, é, pelo menos, é um belo paraíso para os turistas, que chegam trazidos pela Via Dutra.