Onde a Dutra começa (ou acaba)

Onde a Dutra começa (ou acaba)

A depender da direção em que você está seguindo, o Monumento a São Cristóvão pode ser o começo ou o fim da via Dutra. Mas o chamado marco zero da rodovia está localizado no Estado do Rio de Janeiro, precisamente no Trevo das Margaridas, no bairro do Jardim América, e está a 31,5 km do centro da capital fluminense.

Inaugurado em 1966 no dia de São Cristóvão, 28 de setembro, ele é composto por uma estátua em bronze de 3 metros de altura do referido santo – de autoria do escultor Sergio Bertoni. A estátua é protegida por uma construção com 4 lâminas de concreto, que formam uma capela com 20 metros de altura.

Protegida simbolicamente, claro. Ao longo dos seus mais de 54 anos de vida, a estátua do santo padroeiro dos motoristas já foi alvo de ataques de gente mais interessada no bronze que lhe dá forma do que em sua santidade. 

Em dezembro de 2010, cinco meses depois que o monumento havia sido reformado pela prefeitura, roubaram-lhe o cajado e a perna direita, cirurgicamente serrada.

Bem em frente ao monumento, na marginal da Dutra sentido Rio-São Paulo, está um prédio cinzento em ruínas. Quem passa por ele à noite e vê o segundo andar demolido e janelas sem vidro tem certeza de tratar-se de uma construção abandonada. De dia, porém, as portas abertas, pelas quais se vê dezenas de pneus empilhados, e o movimento de caminhões que estacionam sobre a calçada mostram outra realidade. Ali funciona, há quase duas décadas, um depósito especializado em material automotivo – pneus, calotas, para-choques e outros acessórios –, o que explica tantos caminhões. 

A região é divisa entre o subúrbio carioca e o município de São João do Meriti, primeira cidade da Baixada Fluminense por onde a Dutra passa ao sair da capital. 

Tirando o monumento, não se trata exatamente de um local com atrativos turísticos. Possivelmente é o que explica os olhares desconfiados dos funcionários do depósito quando o fotógrafo Fernando Martinho desce do carro com uma câmera apontada para São Cristóvão. 

“Tá fotografando o que aí, irmão?”, pergunta um deles. 

Apesar do sotaque, o tom nada lembra da propagandeada simpatia carioca. Mas a entonação muda quando surge pela porta um senhor careca, de camiseta amarela, apoiado em um par de muletas. 

Fernando Garcia, 62 anos, trabalha há 18 anos no prédio em frente ao monumento, juntamente com seu filho. “Quando cheguei aqui ajudei a reformar a estátua”, conta entusiasmado depois de esclarecido o motivo de nossa parada. Garcia está há 40 anos no ramo da sucata, que é comercializada no depósito. “Nesse ramo já vi de tudo; até um cágado vivo já achei em meio a material compactado”, recorda. 

Antes disso foi office-boy, cobrador de ônibus e caminhoneiro: “Rodei por essa Dutra toda; agora ela está um tapete”, conta ele. Em 1998 tomou um tiro e ficou paraplégico. Hoje trabalha em regime de cooperativa com outros sucateiros. “Gerei 60 empregos aqui. Estava trabalhando com coleta seletiva com a prefeitura, mas eles pararam”, lamenta. 

E depois de algumas fotos ele se despede, dessa vez com a propagandeada simpatia carioca. 

E a reportagem inicia seu caminho de volta para São Paulo, pela Dutra.