O “pai da Dutra”

O “pai da Dutra”

Se fossemos fazer uma analogia, poderíamos dizer que o caminhoneiro é a versão contemporânea do tropeiro. Assim como o viajante dos séculos 18 e 19, o caminhoneiro é essencial para que mercadorias saiam do seu ponto de produção e cheguem até o consumidor. A diferença é que, no lugar de burros e mulas para carregar suas cargas, eles utilizam modernos caminhões FH 460, Ategos 2425 e Accelos 815. E as estradas, bem, as estradas são muito melhores. 

Uma coisa, contudo, não mudou: assim como os antigos viajantes, os motoristas também precisam de um pouso seguro para descansar. Hoje, quem faz o papel das antigas vendas (as paradas dos tropeiros) são os postos de combustível ao longo das estradas brasileiras. E quando se fala em Dutra há uma unanimidade entre os caminhoneiros: o posto Sakamoto. 

O Autoposto Sakamoto está incrustado nos dois lados da Dutra, no bairro de Bonsucesso, em Guarulhos (SP). É importante que se cite o nome do bairro aqui, porque a relação entre Bonsucesso e os Sakamoto é quase simbiótica. O japonês Morio Sakamoto, o patriarca do clã, chegou à região há mais de 90 anos. 

Morio havia desembarcado no Brasil em 1926. Na procura de terras para plantar batatas, acabou comprando três alqueires na região de Bonsucesso. Ali construiu uma casa e uma venda, onde vendia querosene para lampião, ferramentas e comida. Com os lucros foi comprando as terras vizinhas. No final das contas, seu modesto sítio se transformou em uma fazenda de 65 alqueires. 

Em entrevista concedida ao jornal guarulhense Folha Metropolitana, em 2006, ele relembrou aquele momento: “Cheguei a Bonsucesso em 1929. No início dos anos 1930 eram, no máximo, seis ou sete famílias que moravam na região e viviam da lavoura. Nessa época, o bairro era só mato e tinha apenas a Estrada Velha (atual Avenida Papa João Paulo I). A construção da Dutra foi a melhor coisa que podia acontecer para o bairro.”

Morio tinha três filhos: Tadayoshi, Katsumi e Moriô. O primogênito Tadayoshi é o fundador do Posto Sakamoto, criado em 1960. Hoje ele é administrado pelos quatro filhos de Tadayoshi.

A matriz é o Sakamoto I, no sentido SP/RJ. O Sakamoto II fica no sentido RJ/SP. Até poucos anos o Sakamoto I, cujo terreno tem 27 mil m2, era a parada preferencial dos caminhoneiros: as bombas de diesel ficavam na parte frontal e boa parte do estabelecimento era coberto por um grande telhado. Com a reforma, o telhado foi retirado e o espaço ganhou uma hamburgueria, restaurante japonês, borracharia e loja de autopeças. As bombas de diesel e GNV foram para o fundo – e são poucas. Há motivos para a mudança de perfil. “Com o crescimento da região, o posto está no meio da cidade. Hoje é um posto de bairro. E com a implantação da pista marginal na Dutra, os caminhões passaram a trafegar pela via expressa, fora da rota do posto”, explica Sergio Oshiro, gerente do Sakamoto 1.

Mas e o caminhoneiro? Virou um tropeiro sem pouso? O fato é que, enquanto o Sakamoto I mudava de um lado da Dutra, o mesmo acontecia na outra margem. O Sakamoto II encorpou-se com o terreno do sítio da família ao seu redor, ganhando 90 mil m2. Boa parte desse espaço é ocupada hoje por um estacionamento fechado com capacidade para estacionar 600 caminhões. É considerado o maior do Brasil. 

Não se trata apenas de um local de estacionamento. No espaço há banheiros, restaurante e o Clube do Caminhoneiro: uma área com sala de cinema com 40 lugares (filmes ininterruptos das 8h às 22h), Lan House com oito computadores, Wi-fi, assistência para emissão de notas, café, geladeira, microondas, sala de enfermagem e salão de cabeleireiro. 

“O Sakamoto é o ‘pai’ da Dutra. Aqui é uma área onde o caminhoneiro se sente em casa. Se você rodar entre São Paulo e Rio, quando chegar aqui, é onde vai se sentir à vontade”, proclama Clésio Félix, o supervisor do Clube do Caminhoneiro.

O caminhoneiro Geraldo Ribeiro dos Santos, um dos que estavam estacionados no posto durante a visita da reportagem, conta que há 13 anos usa os serviços do Sakamoto: “Aqui é a nossa casa. É o que ampara a gente. Em São Paulo se não tiver um lugar assim para parar e descansar com segurança fica complicado”. Geraldo, conhecido como Índio entre os amigos, tem 43 anos – 20 como caminhoneiro – e é de Porto Velho, Rondônia. Estava havia 9 dias na estrada.

“Minha rotina são 15 dias no caminhão e 15 em casa”, conta. Nos 20 anos que toda pelo Brasil afora, conheceu mais de 300 cidades e centenas de estradas. Considera a Dutra uma das melhores. 

Fernando Francisco de Oliveira, gerente do Sakamoto II, no qual trabalha há 25 anos, explica que há dois tipos de público no posto: “Na parte da manhã é a turma que vai fazer entrega em São Paulo, e o público da tarde é mais da carreta; é o pessoal que é mais viajante”. Esses últimos são os que costumam pernoitar – e às vezes até passam dias ali, esperando uma carga. 

Fernando é pernambucano de Águas Belas. Ele lembra bem o dia que chegou em São Paulo: “No dia do anúncio do Plano Collor”. Lembra também que naquele momento achou que tinha cometido um erro ao vir para o Sudeste. Passou alguns anos pulando de emprego em emprego, até que um amigo que trabalhava no Sakamoto o indicou para os proprietários. “O que eu gostei neles foi o jeito como se relacionam com os funcionários. Com eles é tudo ‘olho no olho’”. Com tantos anos à beira da rodovia, ele faz a avaliação do longo casamento entre ela e o posto: “A relação do Sakamoto com a Dutra é uma parceria de longa data. Muita coisa mudou para melhor, tanto no posto quanto na rodovia.”