Içá, o caviar do Vale

Içá, o caviar do Vale

Fêmea da saúva, torrada na banha, é ingrediente básico de farofa que virou atração turística em cidades do Vale do Paraíba  

Uma carta enviada em 1903 pelo escritor Monteiro Lobato (1882-1948) ao amigo mineiro Godofredo Rangel, também escritor, dá bem a medida de quanto os nascidos do Vale do Paraíba apreciavam o içá. 

“Não és capaz, nunca, de adivinhar o que estou comendo. Estou comendo… tenho vergonha de dizer. Estou comendo um companheiro daquilo que alimentava S. João no deserto: içá torrado! Sabe, Rangel, que o içá torrado é o que no Olimpo grego tinha o nome de ambrosia? Está diante de mim uma latinha de içás torrados que me mandam de Taubaté. Nós, taubateanos, somos comedores de içás. Como é bom, Rangel! Prova mais a existência do bom Deus do que todos os argumentos do Porfírio Aguiar. Só um ser Onipotente e Onisciente poderia criar semelhante petisco!”

Em outra carta, escrita em 1945, endereçada a uma prima, Monteiro Lobato define o içá como “o caviar da gente taubateana”.

O içá é um dos nomes da fêmea da formiga saúva, também conhecida como tanajura. Seu abdome, repleto de ovas, possui cerca de 30% de gordura e 15% de proteína. Era um alimento muito apreciado pelos índios que habitavam o Vale do Paraíba e o litoral. O gosto pelo içá foi herdado pelos nascidos na região, especialmente na parte conhecida como “Fundo do Vale”. Ali, na cidade de Silveiras, a 10 km da Dutra, está o Restaurante do Ocílio, que ainda traz a farofa de içá em seu cardápio (e até onde se tem notícia é o único).

O nome do antigo dono, que faleceu em 2017, foi mantido, mas desde então quem toca o restaurante é Mateus Araújo, de 33 anos. O restaurante, especializado em comida tropeira, é um galpão aprazível: trilha sonora com música caipira de raiz, mesas de madeira, cerveja artesanal própria e saladas preparadas com folhas recolhidas na horta bem em frente à janela. E, claro, tem a farofa de içá, da qual o chef de cozinha é um entusiasta. “É um prato pelo qual sou apaixonado desde que me dou por gente. Quando era moleque apanhava içá e queria aprender a preparar a farofa, porque sempre tinha de levar na casa de alguém que sabia fazer. Minha mãe foi me ensinando e, com 12 anos, já fazia”, conta Mateus. Segundo ele, não é uma receita fácil de fazer. “É um prato demorado, tem que colocar num fogo mais brando”. 

As içás são caçadas em outubro e novembro, nas primeiras trovoadas da primavera. Na época da revoada para acasalamento, elas saem aos milhares dos formigueiros. Os moradores da região saem para apanhar fêmeas de saúva, que são torradas e ficam guardadas congeladas. Colocadas numa garrafa pet de dois litros, podem custar até R$ 100,00. “A cultura do içá é muito forte aqui em Silveiras”, conta Mateus. “Por exemplo, se tiver revoada de içá hoje, você pode vir de tarde que a cidade inteira vai estar no morro, caçando e já limpando e torrando. E à noite, a cidade cheira a içá. É uma delícia.”

Depois de apanhadas, tira-se a cabeça, pernas e asas da formiga, deixando apenas o abdome, que é torrado na panela com banha e sal. Assim como muitos moradores da cidade, Mateus tem um freezer repleto de sacos com içás torradas. “A gente também despacha por Sedex para o Brasil inteiro. Já mandei até para Pernambuco”, conta. A farofa é preparada no restaurante com farinha de mandioca e leva como acompanhamento de folhas de ora-pro-nóbis (um tipo de trepadeira espinhosa e resistente). “Era o costume tropeiro, porque tinha muito na região. Sem descer do animal, eles pegavam a folha e iam comendo com a farofa”, conta Mateus. Segundo ele, por parecer exótico, o prato faz grande sucesso com os viajantes. “Muita gente que está passando pela Dutra acaba vindo aqui. E acaba virando cliente de voltar sempre.”