Fazenda Pau D’Alho: aqui D. Pedro I comeu na cozinha

Fazenda Pau D'Alho: aqui D. Pedro I comeu na cozinha

A Estrada dos Tropeiros também é conhecida como “Caminhos da Corte”. Por ali passaram D. Pedro I, D. Pedro II, a Princesa Isabel e outros tantos nomes com prefixo nobiliárquico. O trajeto ligava a Corte, na época no Rio de Janeiro, a São Paulo era pontuado por grandes e ricas fazendas de café.

Obviamente essas idas e vindas da nobreza renderam muitas histórias – a maioria folclórica. Uma delas envolve a Fazenda Pau D’Alho. 

Segundo o relato, aconteceu quando D. Pedro I seguia para São Paulo na viagem em que iria proclamar a Independência. Fazia parte de sua comitiva o coronel João Ferreira de Souza, proprietário da fazenda Pau D’alho, onde o grupo pernoitaria. No caminho, uma forte chuva surpreendeu os viajantes e, com a roupa encharcada, o imperador pegou emprestado uma farda de soldado.

Faltavam algumas léguas para chegar à fazenda e o irrequieto D. Pedro resolveu apostar corrida com os integrantes de sua comitiva até a Pau D’Alho. O imperador saiu em disparada e acabou chegando muito antes que seu entourage. 

Bateu à porta da fortificada fazenda e foi confundido com um soldado comum. D. Pedro foi até a cozinha e pediu algo para comer. A esposa de João Ferreira de Souza ordenou que lhe preparassem um prato de comida. Pediu a ele que se sentasse na cozinha, uma vez que a sala de jantar estava sendo arrumada para receber o monarca. 

Pedro sentou-se na escada da cozinha e fez sua refeição divertindo-se com o anonimato. Consta que o coronel João Ferreira quase teve um infarto quando o viu sentado na escadaria com um prato de comida nas mãos. 

Essa saborosa história pode ser ouvida em diversas localidades das Estrada dos Tropeiros, mas ganha um sabor especial quando é contada pelo guia Alexandre do Prado diante da porta da referida cozinha na fazenda Pau D’Alho, no município de São José do Barreiro, acessado pela Dutra na altura da cidade de Queluz. 

A pioneira no café

Por pertencer a uma entidade pública, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a propriedade é a única do gênero na região aberta à visitação gratuita. As terras da fazenda foram doadas em 1792 para João Ferreira Guimarães, pai de João Ferreira de Souza. Entretanto, a Pau D’Alho só seria inaugurada entre 1817 e 1819. É considerada a primeira instalação na região voltada inteiramente para a produção e beneficiamento do café.

Uma das razões para visitá-la, além da belíssima região onde se localiza, é a sua arquitetura única, fruto da verve militar de Ferreira de Souza, que construiu a fazenda como uma fortificação.

O Iphan assim a descreve: “É excepcional por sua racionalidade de planejamento e sabedoria na aplicação de diferentes influências técnicas e agenciamentos espaciais, especialmente no aproveitamento dos recursos do terreno, tais como o uso da roda d’água e bateria de pilões.”

O fim do ciclo do café levou a região ao declínio – como Monteiro Lobato descreve em “Cidades Mortas” – e a Pau D’Alho não escapou da derrocada. O último dono da fazenda foi José Airosa Filho, neto do coronel João Ferreira de Souza, que a havia adaptado para a pecuária leiteira. Em 1968 a fazenda foi adquirida pelo Instituto Brasileiro do Café (IBC). O objetivo era transformá-la no Museu Nacional do Café, mas, apesar de restaurada, o projeto não saiu do papel. “A área tombada foram os 2.460 metros de construção. A fazenda no total tinha 400 alqueires e, nos tempos áureos, chegou a ter 300 mil pés de café”, conta Prado. 

A visitação com monitor está aberta de quinta a domingo, das 9h às 16h, e pode ser agendada na Prefeitura de São José do Barreiro pelo pelo e-mail [email protected].