É isso aí, meu chapa!

É isso aí, meu chapa!

Quem passa pelo Km 210 da Dutra, em Guarulhos, nota, na entrada do posto Sakamoto II, a presença de um grupo de homens acenando entusiasmados para os caminhões que chegam. Eles são os chapas, personagens muito comuns nas estradas brasileiras de Norte a Sul, mas pouco conhecidos em geral. 

Para os caminhoneiros, os chapas são muito importantes: são guias, mão de obra e, muitas vezes, companheiros de viagem. 

Eles oferecem aos caminhoneiros o serviço de guia nas cidades, mostram o caminho mais rápido para chegar até o destino de entrega das mercadorias, e ainda ajudam nos serviços de carga e descarga do caminhão. E ainda dão dicas dos melhores lugares para comer e pernoitar.

A relação entre caminhoneiros e chapas é simbiótica.  É natural, então, que o Sakamoto II, com o maior estacionamento de caminhões da Via Dutra, concentre também um grande número de homens se oferecendo para o trabalho. Diariamente, cerca de 50 chapas se revezam por ali. 

 

Um grupo – formado por aqueles que costumam acenar para os caminhões oferecendo seus serviços – fica na margem da rodovia, diante do posto. Mais para trás, na área de recuo, espécie de pit-stop para os caminhões, fica outro grupo, formado por chapas com clientes fixos. Eles esperam as ligações e atendem caminhoneiros avulsos quando há muito movimento.

“GPS não carrega peso”  

Carlos Lopes, 41 anos, é uma espécie de líder informal do primeiro grupo, o que fica na margem da rodovia. É o primeiro a se manifestar quando a reportagem se aproxima. Pergunta onde estão os nossos crachás de identificação e onde a matéria será  publicada. Bem articulado, em alguns minutos de conversa mostra-se um sujeito cordial e inteligente. Nasceu em Guarulhos e foi criado no Parque Alvorada, ali mesmo por perto do posto. É chapa desde os 16 anos. “Sempre trabalhei no Sakamoto. Criei minhas filhas”, conta ele. Lopes tem quatro filhas – a mais velha tem  22 anos e a mais nova, 13. Há três meses, ele ganhou uma neta.

Lopes costuma guiar os motoristas pela cidade de São Paulo e pelos arredores do aeroporto de Cumbica, em Guarulhos. Mas, como chapa, conta que já viajou até Lagarto, em Sergipe. A diária de trabalho é de R$ 200. 

 

“Chapa é como motorista de táxi, saiu do ponto já começa a rodar o taxímetro”, diverte-se.  

Seu plano é trabalhar mais dez anos e depois se dedica à sua própria   empresa. Mostra um Monza marrom, com a inscrição “C.R.L. Transportadora” nas laterais. Ele afirma que, por causa do GPS, a profissão de chapa não vá durar muito tempo. Mas faz uma ressalva: “O GPS foi feito para orientar carro pequeno. O caminhoneiro que segue GPS entra em lugares onde não há altura para passar, em ruas estreitas.  E o GPS também não ajuda a descarregar o caminhão”, ri. 

Relação de honestidade 

Carlos Wilson da Silva também faz parte do primeiro grupo. Tem 36 anos e chegou de Recife, sua cidade natal, aos 4 anos. Trabalha como chapa há 15, “Desde o dia 5 de abril de 2005”, diz com precisão. Antes de ser chapa, ele  passou por diversos empregos, mas não se adaptou a nenhum. O lugar mais longe que esteve como chapa foi Abelardo Luz, em Santa Catarina. Segundo ele, uma das características essenciais do ofício é a honestidade. 

O Jeguinho, o assalto 

Ariberto Vieira de Souza [temos foto] não é o líder do segundo grupo, simplesmente porque não há líderes ali. A discrição desse grupo contrasta com a animação da turma da frente. Entre os chapas, Ariberto é conhecido como “Jeguinho”. Segundo Joãozinho, um de seus companheiros, ele tem esse apelido porque é pequenino, mas carrega carga que “muito chapa grandão aí não consegue carregar”.

Souza nasceu no Ceará e veio para Guarulhos ainda bebê. Aos 47 anos é o veterano da turma. “Venho pra cá desde os 7 anos de idade, quando o Sakamoto ainda era um posto miudinho ali”, diz, apontando para o Sakamoto I, do outro lado da rodovia. “Meu tio me trazia pra cá. Eu  não carregava peso, mas ficava andando de um lado para o outro, observando.”

Ele também se orgulha de ter criado a filha, hoje com 30 anos, trabalhando como chapa. Costuma chegar às 4 horas da manhã no posto (“O pico aqui é às cinco”). 

 

Ele explica que cada chapa se especializa em um tipo de carga. A dele é pó de pedra, transportado em sacos de 50 quilos, mas trabalha também com outras cargas. O preço de sua diária varia entre R$ 500 e R$ 600, a depender da quantidade de material que descarrega. 

Mas Souza também lembra de momentos críticos no ofício: em 2015 ele e um motorista de caminhão ficaram presos durante dois dias em um cativeiro. “A gente estava descarregando o caminhão, que era novinho, e parou uma perua com seis homens armados. Levaram a gente e só liberaram depois que o caminhão estava bem longe”, relembra.

Mesmo assim, diz que não trocaria a vida de chapa por nada. “Prefiro trabalhar assim. Você acorda de madrugada, mas também pode chegar cedo em casa. Nunca trabalhei, nem tive vontade de trabalhar em firma. Carteira eu só sei rasgar, não sei assinar.”

DESTAQUE  

A dissertação de mestrado de Pedro Mezgravis, “Os Chapas e o seu Papel no Meio Técnico-Científico-Informacional e na Logística dos Transportes no Brasil. Estudo de Caso na Cidade de Ribeirão Preto/SP (2003-2006)”, apresentada em 2007 na  Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da USP, descreve o trabalho desses profissionais da seguinte forma: 

“O chapa é um trabalhador urbano que não tem acesso a vínculos formais de emprego – popularmente chamado “desempregado” – e que busca ocupação e fonte de renda ou alguma forma de sobrevivência realizando carga e descarga de mercadorias de veículos, que normalmente são caminhões. Bem como oferecendo serviço de orientação a motoristas, ou quem mais requisitar e pagar, pela cidade e arredores. E ocupam pontos específicos de uma cidade conforme as suas principais vias de circulação. Realizam “pontos de chapas” principalmente nos quilômetros finais que antecedem a cidade nas estradas que dão acesso a ela. Podem estar presentes também em algumas avenidas que são acesso destas mesmas estradas dentro da cidade, ou as vias – avenidas e ruas – que dão acesso direto ou são marginais às estradas. Por vezes é possível observar pontos de chapas em rotatórias e entroncamentos de avenidas importantes da cidade.”

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