Como a Dutra deixou de ser a “estrada da morte”

Como a Dutra deixou de ser a “estrada da morte”

No dia 20 de julho de 1986, o jornal O Estado de S. Paulo publicou uma longa reportagem com o título: “Uma viagem pela “rodovia da morte”. Nela, o repórter Alberto Luchetti contava sua jornada pelos 236 km do trecho paulista da via Dutra onde, na semana anterior, um engavetamento envolvendo 40 veículos havia causado a morte de 14 pessoas. 

O cenário descrito no texto era o de uma rodovia onde os motoristas praticavam a direção perigosa (com excesso de velocidade). À época, a Dutra já era a principal rodovia do país, mas deparava-se com sérios problemas ao longo de todo o trecho: faltava acostamento em alguns pontos; em outros, a sinalização estava apagada e praticamente não havia investimentos de manutenção. Os riscos eram diários e a fiscalização era deficiente. Em suma, um panorama desolador. 

Naquele ano, a Dutra completava 35 anos.

Trinta e quatro anos depois, o projeto “Histórias da Dutra” cruzou a rodovia de ponta a ponta. Era outra estrada. Daquele quadro restaram apenas as lembranças, algumas vezes consternadas, de pessoas que conheceram a rodovia naquele cenário pré-concessão. 

A concessão

Em 1995, a Rodovia Presidente Dutra foi incluída no Programa de Concessões de Rodovias Federais (Procofe), que vinha sendo implementado desde 1993. Leiloada em novembro de 1995, a administração e manutenção da rodovia e de sua faixa de domínio (cerca de 50 metros de cada lado a partir do eixo central) passou para a iniciativa privada. A partir de 1º de março de 1996, iniciou a gestão da concessionária NovaDutra, num contrato de concessão de 25 anos.  

Segundo dados da Polícia Rodoviária Federal, em 1996 os acidentes na estrada provocaram a morte de 520 pessoas. Desde então, o número vem decrescendo: em 2019 foram 150 óbitos.

Vale lembrar que desde o início da concessão o tráfego cresceu notavelmente. De acordo com o DNER (atual DNIT), em 1995 circulou pela Dutra uma média de 170 mil carros por dia. Atualmente são 863 mil veículos rodando diariamente. Considerando o aumento de fluxo, o índice de mortalidade na rodovia despencou 85% em 24 anos.

A tríade da segurança

Segundo Virgílio Leocádio, gestor de atendimento da CCR NovaDutra, a impressionante diminuição dos acidentes com mortes é resultado da tríade Investimento-monitoramento-conscientização. Não por acaso, são ações que atacam diretamente os problemas apontados na reportagem de 1986, citada no início deste texto.

Dez anos depois, no primeiro dia da administração da NovaDutra, outra reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, relatava quais seriam os primeiros investimentos da concessionária: substituição das defensas metálicas (guard rails), instalação de barreiras separando as pistas e limpeza dos acostamentos. 

Desde então, o investimento feito na rodovia foi considerável: chegou a R$ 22 bilhões em melhorias operacionais. Este montante inclui: 

  • Construção de 94,6 km de vias marginais
  • Implantação de 38 novas pontes e viadutos 
  • Recuperação de 89 viadutos e 30 passarelas; 
  • Recapeamento de 22 milhões de metros quadrados de asfalto em trevos e acessos. 

“São investimentos vultosos que fizemos para garantir maior trafegabilidade”, explica Leocádio.

No início do contrato, a concessionária anunciava também que colocaria a disposição 14 veículos de resgate e socorro mecânico. Atualmente, são 208 veículos em operação na rodovia.

 

Com os olhos na estrada

A segunda vertente do tripé é o monitoramento. 

Atualmente 102 câmeras interligadas por fibra óptica ao Centro de Controle Operacional (CCO) monitoram a rodovia 24 horas por dia. Além disso, 800 telefones de emergência (callbox), instalados a cada quilômetro nos dois sentidos da rodovia, estão à disposição dos usuários, além de um número 0800, ligado a uma central de atendimento. 

Com tudo isso é possível ter uma resposta mais rápida dos serviços de socorro mecânico e atendimento pré-hospitalar para qualquer problema ou acidente que ocorra na rodovia.

“No sistema 0800 e no callbox recebemos mais de 30 mil ligações por mês dos usuários. Isso também ajuda a reduzir riscos e o tempo de exposição de parada. Conseguimos atender mais rápido na rodovia”, explica Leocádio. 

A CCR NovaDutra também faz o acompanhamento diário de ocorrências e mapeamento dos pontos críticos da rodovia. “Todo mês, a nossa equipe de coordenação e supervisão se reúne para discutir o PRA (Programa de Redução de Acidentes) e analisar os pontos mais críticos e as ocorrências mais sérias”, afirmou. 

De acordo com o gestor de atendimento, as ocorrências mais graves estão nas regiões onde o motorista consegue imprimir maior velocidade; são trechos longos e sinuosos”, explica. 

A CCR NovaDutra também conta com a parceria da Polícia Rodoviária Federal para monitoramento e análise dos pontos críticos e discutir o tipo de intervenção mais adequada. “O que compete à concessionária é mudar uma sinalização, uma placa. À polícia compete avaliar se o local merece um radar, por exemplo”, diz.   

Informar e educar  

A aplicação de recursos em infraestrutura e o monitoramento são essenciais, mas ganham reforço da conscientização do motorista, que acontece em duas frentes: informação e educação. 

“Historicamente, no Brasil, cerca de 90% dos acidentes ocorrem por imprudência e imperícia do motorista. Então a campanha de educação é de extrema importância”, lembra Leocádio. 

No que diz respeito à informação, 38 painéis de mensagens variáveis, colocados ao longo da rodovia, são canais de comunicação diretos com os clientes. “Utilizamos também várias faixas de campanha para alertar o motorista sobre, por exemplo, o principal tipo de acidente na rodovia, que é a colisão traseira”, completa.

Outra ferramenta importantíssima no serviço de informação ao usuário não está na beira da estrada, mas no ar: a rádio CCR FM 107,5 NovaDutra. 

Inaugurada em setembro de 2013, a rádio é uma iniciativa pioneira e funciona em frequência sincronizada por 38 torres de transmissão instaladas nos 402 quilômetros da rodovia. Única emissora no Brasil operada por uma concessionária e dedicada exclusivamente à faixa de domínio de uma estrada, a 107,5 CCRFM leva informação sobre as condições de tráfego e dá dicas de segurança em tempo real, 24 horas por dia.

“A cada três minutos entramos com uma inserção sobre obras na rodovia, trechos em reforma, congestionamentos ou algum acidente que possa ter ocorrido”, diz Leocádio. Em 2019, uma pesquisa de satisfação realizada pelo Instituto Datafolha constatou que a rádio já havia sido sintonizada por 92% dos motoristas de automóveis e 88% dos caminhoneiros. Destes últimos, 33% disseram acompanhar a programação durante todo o percurso da viagem.

Caminhos duradouros

Já o braço educacional fica por conta do programa Caminhos para a Cidadania, do Instituto CCR, que gerencia os investimentos sociais do Grupo CCR. O objetivo do programa é levar ensinamentos e reflexões sobre segurança no trânsito, comportamento cidadão e mobilidade urbana aos alunos dos 4º e 5º anos da rede pública de ensino.

 “A campanha de educação é de extrema importância para nós. Através do programa, levamos para as crianças de 9 a 11 anos esse conhecimento de noções de cidadania, de como saber se comportar como pedestre, como ciclista ou mesmo como passageiros do carro, viajando com os pais”, detalha. 

Desde 2002, quando foi criado, o Caminhos para a Cidadania atendeu cerca de 3,4 milhões de alunos, mais de 128 mil educadores e esteve em 118 municípios, muitos deles cruzados pela Dutra. 

Segundo a orientadora pedagógica Elisangela de Ávila Queluz, o Caminhos para a Cidadania mira no alvo correto. “As crianças têm uma maior noção sobre as normas de trânsito. São muito ciosas do que aprendem, como a importância do uso do cinto de segurança, do respeito à faixa de pedestres. Os adultos até passam por essa formação também, mas nem sempre colocam em prática. E a criança cobra muito isso. Ela é uma multiplicadora do que aprende na escola, e leva isso para a vida, para os pais e para os seus parentes.”

Elisangela trabalha na escola municipal Oscar Ferreira de Godoy, em Santa Isabel, região metropolitana de São Paulo. A instituição faz parte do projeto desde o seu início, em 2005. Na avaliação da orientadora, a parceria com a iniciativa privada tem sido vital. “É muito importante porque garante, tanto para o professor quanto para a criança, a formação continuada. Ela é de longo alcance e tem uma metodologia excelente.” 

Desde 2019, o programa começou a migrar para uma plataforma digital, com cursos livres a distância, com conteúdo voltado aos professores e coordenadores pedagógicos. Em 2020, o programa passou a oferecer conteúdo voltado diretamente para os alunos. “Além da programação voltada para o trânsito, o Caminhos para a Cidadania também tem um cunho ambiental. Acreditamos que esses alunos que formamos podem ser agentes de transformação. O objetivo é que possamos tornar o trânsito mais seguro e gentil”, conclui Leocádio.