Clube dos 500 e Paturi – A milha de ouro da Dutra

Clube dos 500 e Paturi - A milha de ouro da Dutra

O Graal Clube dos 500 fica em Guaratinguetá, no km 58,5 da Dutra, sentido São Paulo/Rio é, teoricamente, uma parada como outra qualquer da rede, com seu café expresso, salgados variados, artigos de primeira necessidade e outros nem tanto. O olhar mais atento, porém, perceberá algo incomum na forma do edifício onde está instalado: suas linhas elegantes e harmônicas são diferentes do que se vê ao longo da rodovia.

É como explica o arquiteto Rolando Piccolo, em artigo na revista Arquitextos.

“O Auto Posto Clube dos 500 é uma das obras projetadas por Oscar Niemeyer no Estado de São Paulo, no município de Guaratinguetá à beira da Rodovia Presidente Dutra, concluída em 1953. São duas edificações paralelas entre si: uma laje plana de concreto com aproximadamente 57 metros de comprimento, sustentada por doze colunas espaçadas em 4,5 metros, sendo oito em formato de K, cobre as bombas de combustível; e um edifício de apoio com sanitários, depósitos, sala de espera e escritório definidos por cinco abóbadas conjugadas [...], com fechamento em elementos vazados em uma das fachadas.”

O artigo de Figueiredo, intitulado “Auto Posto Clube dos 500 – excepcionalidade de uma linguagem Niemeyeriana no pré-Brasília”, seria o suficiente para dar a dimensão desse conjunto na história da arquitetura nacional.

Ao estacionar o seu carro ali, o viajante não encontra nenhuma placa sinalizando que o conjunto arquitetônico é um Niemeyer original e único. 

E faltou muito pouco para que cobertura, colunas e prédio desaparecessem. Em 1992, uma reforma para ampliação do posto danificou seriamente o projeto. Um abaixo-assinado com mais de 450 assinaturas impediu que o posto e a lanchonete fossem colocados abaixo. Até hoje, o conjunto ainda está em análise para tombamento. 

Mas o que um projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer está fazendo ali, na beira da Dutra? Bem, como o nome indica, ali fica o Hotel & Golfe Clube dos 500, um pontos de parada de presidentes (todos, desde sua fundação em 1951, dormiram lá), artistas e celebridades variadas. 

A história fica mais interessante quando se sabe que a cerca de mil metros dali está o restaurante Paturi, outro ponto tradicional da Dutra. Basta dar uma olhada em seu Livro de Ouro: centenas de celebridades deixaram suas assinaturas.

Para resumir: em um determinado período, aquele trecho da Dutra era uma das maiores concentrações de personalidades do país. Para que se entenda como isso aconteceu, é preciso contar a história de dois homens: Orozimbo Roxo Loureiro e Georges Simon Ligot.

Orozimbo e o Clube dos 500

Orozimbo Roxo Loureiro nasceu em Jaú (SP), em 1913. Formou-se em medicina e direito, mas seu tino era para os negócios. Seus contemporâneos o descreviam como “um empreendedor fantástico, dotado da imaginação, ousadia e, infelizmente, do sentimento pouco prático de um artista”.

Em 1945, Orozimbo fundou o Banco Nacional Imobiliário – BNI, no qual aplicaria uma série de conceitos até então desconhecidos no país. “O Orozimbo ficou exatamente 10 anos como banqueiro, um tempo curtíssimo”, conta Ana Cristina Canettieri, autora do livro No Meio do Caminho – Clube dos 500. “No BNI ele implantou algumas práticas de gestão inovadoras, como fazer propaganda em jornal, o que para os outros bancos era quase uma prostituição. Os bancos também tinham apenas uma sede, muito formal, muito vetusta, e o Orozimbo abriu 40 agências. Ele foi de um arrojo muito grande. Abria crédito para pequenos empresários e produtores, o que começou a atrair uma outra classe para o banco, o que, na minha visão, incomodou muito o status quo na época.”

O BNI durou até 1955, mas nesse período de uma década Orozimbo praticamente revolucionou o conceito imobiliário em São Paulo. Sua companhia agregou algum dos maiores talentos da arquitetura e urbanismo, como Oscar Niemeyer, Abelardo de Souza, Prestes Maia, Ricardo Menescal e Burle Marx. Orozimbo trouxe Niemeyer para São Paulo e promoveu os projetos assinados pelo arquiteto: os edifícios Califórnia, Montreal, Triângulo, Eiffel e Copan. 

Em 1949, Samuel Ribeiro, engenheiro, poeta e diretor da Caixa Econômica, comentou com Orozimbo que a família Souto Maior estava vendendo uma fazenda de 60 alqueires em Guaratinguetá. Na época, a Dutra estava em construção e cortou a propriedade ao meio.

Ribeiro sugeriu que Orozimbo comprasse a fazenda e implantasse lá um Clube dos 500, aos moldes do Clube dos 200, que Ribeiro havia ajudado a construir junto com a família Guinle. Inaugurado em 1928 às margens da antiga estrada Rio-SP, hoje Rodovia dos tropeiros (SP-68), o Clube dos 200 foi um badalado ponto de pouso – por lá se hospedou gente ilustre como Tarsila do Amaral, Carmem Miranda, Rita Hayworth e Getúlio Vargas.

Orozimbo bem que tentou montar algo ao estilo, mas as brigas nas primeiras reuniões de ilustres – juntando quatrocentões paulistas e a nova elite, formada por sírios, libaneses, italianos e outros “estrangeiros” proeminentes – mostrou que o projeto era inviável.

Até então, Orozimbo nunca tinha visitado a fazenda. Convidou Niemeyer e o corretor de sua empresa, Gastão Maciel, para irem com ele até lá. Em seu livro de memórias, Garimpando Reminiscências, ele descreve aquele momento: “Percorremo-la juntos e acabei por aceitar o conselho dos meus convidados: [..] desistir da constituição de um clube social e transformar a fazenda em empreendimento comercial de turismo pela excelência de sua localização quase ao centro da nova rodovia asfaltada que viria ligar as duas principais cidades brasileiras”. 

Foi assim que Orozimbo colocou o projeto em pé: Niemeyer construiu, de um lado da rodovia, duas alas com dez apartamentos cada uma; do outro, onde fica o bairro Clube dos 500, ergueu o posto de combustível, restaurante, lanchonete e a casa do administrador do condomínio.

O arruamento do Clube ficou por conta de Prestes Maia, enquanto Abelardo de Souza cuidou do planejamento do bairro. Burle Marx foi responsável pelo paisagismo. A excelência do projeto ganharia cores vivas em 1951 durante o “exílio” do pintor Emiliano Di Cavalcanti. Segundo relatos, Di Cavalcanti passou o período no Clube a convite de Orozimbo, fugindo de complicações no Rio de Janeiro, onde envolvera-se com uma mulher casada. Ao chegar no Clube, o pintor deparou-se com a excelente adega e propôs: trocaria vinho e estadia por um mural em uma “linda parede branca” (palavras dele) deixada por Niemeyer no restaurante recém-construído.

Em 1956, com a falência do BNI, todo o patrimônio de Orozimbo foi transferido para o Grupo Bradesco. Seu único pedido foi que o Clube dos 500 continuasse em sua posse. Orozimbo morreu de ataque cardíaco, em 1976, durante uma reunião com Amador Aguiar, o dono do Bradesco. Por um período, o Clube dos 500 foi um espaço de treinamento do Banco. 

Em 1991, a propriedade foi adquirida pela família Sodré Santoro. A tradicional família de leiloeiros se encantou com a história e resolveu manter intacto o patrimônio cultural do clube. Hoje, os 20 quartos e o mural de Di Cavalcanti continuam lá preservados. “Uma das coisas que a minha família fez foi manter essa tradição. Então, tinha um apartamento do Niemeyer e ele vinha se hospedar aqui. É uma ala que a gente preservou uma temática dos anos 50”, diz Mariana Sodré Santoro Batochio, diretora do Clube dos 500 desde 1998. Hoje o Clube dos 500 está focado em casamentos e eventos. O campo de golfe de 9 buracos também continua muito requisitado. 

Georges Ligot: um pedaço da França na Dutra

A alta frequência de personalidades naquele pedaço da Dutra no começo dos anos 1950 acabou atraindo um jovem cozinheiro francês: Georges Simon Ligot. Nascido em 1922 em Loué, uma vila nos arredores da cidade de Les Mans, Ligot mudou-se para Paris em 1947. Na capital francesa, começou a trabalhar como commis de cuisine no tradicionalíssimo Hotel e Restaurante Lapérouse, casa da família Rockefeller e de De Gaulle. Fabienne Ligot, sua filha e hoje administradora do Restaurante e Hotel Paturi, conta como foi a vinda do pai para o Brasil. 

“Uma noite chegou uma grande comitiva para jantar. Depois da refeição, um deles chamou o garçom e disse que queria falar com o chef. Meu pai foi receoso até a mesa, achando que tinha algo errado com a comida. O homem que pediu para chamá-lo olhou para ele e disse: “estou abrindo um restaurante francês no Rio de Janeiro e quero que você vá ser meu chef’. Papai ficou paralisado com a oferta. Ele mal fazia ideia de onde ficava o Brasil.” Era começo de 1954. Ligot pensou e três dias depois aceitou o convite. 

Ligot desembarcou no Rio de Janeiro em 24 de agosto de 1954 – dia da morte de Getúlio Vargas. O tal restaurante em que se tornaria chef era o Cremaillére, que viraria ponto de encontro da boemia carioca. Seis meses depois, Madeleine, sua mulher, viria para o Brasil.

Antes de mudar a vida radicalmente, Ligot ainda trabalharia em outro restaurante francês badalado no Rio, o Le Bistrô. “Um dia papai reencontrou o Jean Dupret, que ele havia conhecido no navio. O Jean havia aberto um restaurante em Petrópolis e perguntou: ‘Por que você não abre seu próprio negócio?’ Jean, que tinha trabalhado no Clube dos 500, disse que conhecia um lugar, frequentado pela alta sociedade e que apreciava a cozinha francesa.”

Foi assim que, em um fim de semana de 1955, Ligot foi até Guaratinguetá, achou um pequeno sítio para alugar e se mudou para os arredores do Clube dos 500. Uma das coisas que chamou a atenção de Ligot eram os pequenos patos que viviam na região – os paturis. “No começo o restaurante era na Vila São Bento, ao lado do Clube. Era uma casa simples, com poucas mesas, mas a frequência já era grande”. Apesar de pequeno e despojado, o restaurante de Ligot mantinha a circunspecção – toalhas nas mesas, guardanapos de pano – e tradição culinária francesa. O carro-chefe era Canard à l'orange, o pato com laranja. Não demorou muito para que os hóspedes do Clube dos 500 descobrissem aquela maravilha. A notícia se espalhou e os carros começaram a sair da Dutra para fazer uma parada estratégica no Paturi. 

Com os negócios de vento em popa, em 1960 Ligot resolveu expandir: comprou um terreno do outro lado da Dutra, construiu um novo restaurante e começou a erguer os chalés de seu próprio hotel. “O Paturi nunca foi concorrente do Clube dos 500 enquanto hotel. Ele é muito mais simples”, analisa Fabienne. Em compensação, enquanto restaurante, o Paturi era imbatível – e não só em Guaratinguetá, mas em toda extensão da Dutra. Ao longo dos anos por ali passaram nomes como Jorge Amado, Caetano Velloso, Chico Anysio, Elis Regina, diversos presidentes e que tais. O segredo do sucesso tinha nome e sobrenome: Georges Ligot. “O Paturi era a vida do meu pai. Ele cuidava de tudo. Antes de morrer, com 95 anos, ele ainda rodava entre as mesas para ver se estava tudo bem.” Ligot faleceu em 2017 e com ele se foi o penúltimo brilho daquele trecho que um dia foi o mais glamouroso da Dutra. O último ainda persiste nas obras de Niemeyer e de Di Cavalcanti.