Antes de Nova Iguaçu, havia a Iguassu velha, uma história atravessada por diversos caminhos

Antes de Nova Iguaçu, havia a Iguassu velha, uma história atravessada por diversos caminhos

A Baixada Fluminense, passagem obrigatória para quem chega ao Rio de Janeiro pela Dutra, é, assim como em Guarulhos (SP), um trecho superadensado da rodovia. São municípios conurbados, onde moram, segundo estimativa do IBGE, cerca de 3,6 milhões de pessoas. 

Hoje, fala-se muito da Baixada, mas o que muita gente ignora – até mesmo quem mora por lá – é a sua riquíssima história. A região já foi cobiçada pelos franceses, fez parte do caminho do ouro e do caminho do café e foi conhecida como a capital nacional da laranja.

Até a primeira metade do século 20, quase toda a Baixada fazia parte do município de Nova Iguaçu (ou Iguassú, como era sua grafia antes da reforma ortográfica de 1943), que nem sempre foi nova.

“Se existe uma Nova Iguaçu é porque houve uma velha Iguaçu”, ensina Marcus Antonio Monteiro Nogueira, historiador e secretário de Cultura do Município. 

Autor do livro Baixada Fluminense: A Construção de Uma História, Nogueira é um dos idealistas que lutam há anos pelo resgate do que restou do sítio histórico de Iguassú Velho, hoje localizado na região do Tinguá, e que abriga a fazenda São Bernardino, as torres da igreja de Nossa Senhora da Piedade, o Cemitério dos Escravos, um trecho da Estrada Real do Comércio e o Antigo Porto.

O projeto de restauração e revitalização teve início em 2017, quando a Prefeitura tomou posse dos 16 mil metros quadrados da fazenda por decisão judicial. 

Fundada em 1875, a São Bernardino foi um dos expoentes do ciclo do café na região. Segundo Nogueira, o projeto de restauração, assinado pelo arquiteto Amaury Lopes, é inspirado na cidade de Paraty e vai usar parte da construção, como a senzala, para a instalação de uma livraria-bistrô, além de galeria de arte, loja de artesanato e espaço gastronômico.

Ainda de acordo com o secretário, o antigo engenho será transformado no Centro de Memória, com exposição permanente da história da antiga Vila de Iguassú, em um acervo com mais de 10 mil itens, como mobiliário, objetos e mapas da época. 

O Caminho Novo

A história das transformações da Baixada Fluminense sempre esteve ligada às estradas. O povoamento da região teve início no século 16, quando os portugueses expulsaram os franceses, que haviam feito uma aliança com os índios tupinambás, que ocupavam o local.

Os novos colonos se estabeleceram então às margens dos rios, principalmente do Rio Iguassú, que desaguava na Baía da Guanabara. 

No começo do século 18, foi aberto o Caminho Novo das Minas Gerais com o objetivo de escapar da ação de corsários que infestavam a Baía de Ilha Grande e roubavam o ouro que chegava ao Rio de Janeiro, vindo de barco desde Paraty, onde acabava o Caminho Velho, localizada do outro lado da baía. 

O Caminho Novo passava por vários povoados da Baixada, que foram elevados à condição de freguesia.  E a principal delas era a de Nossa Senhora de Piedade do Iguassú. Como de praxe, Iguassú foi erguida ao redor de uma igreja, a matriz da freguesia, construída em 1719. 

“Por aqui passava Tiradentes, fazendo a guarda do ouro. O caminho de terra firme passava no meio do arraial de Maxambomba, que hoje é Nova Iguaçu. O caminho seccionava muito perto de onde está a Dutra, entre Belford Roxo e São João do Meriti”, explica Nogueira.



A Estrada Real

O grande impulso no desenvolvimento da freguesia aconteceu a partir de 1822, quando foi criada a Estrada Real do Comércio, considerada a primeira estrada brasileira aberta para o transporte do café.

 “A estrada real do comércio era importantíssima. Foi a primeira estrada de comércio pavimentada no Brasil, que foi feita pelo tio-avô do Oscar Niemeyer, o coronel Conrado Jacob de Niemeyer”, conta Nogueira. 

Graças à Estrada Real do Comércio, a Vila de Iguassú se transformou em movimentado entreposto, atraindo negociantes, trabalhadores e fazendeiros. Com o crescimento e efervescência comercial, a freguesia foi elevada, em 1833, ao status de município.

A Ferrovia

O declínio da velha Iguassú teve início em 1858, com a inauguração da Estrada de Ferro Dom Pedro 2º. A ferrovia se tornou o principal meio de escoamento da produção de café, esvaziando o porto do rio Iguassú. Assim, em 1891, o Arraial de Maxambomba, por onde passava a estrada de ferro, se tornou o coração do município. O nome “Nova Iguassú” só foi adotado em 1916.

 “Maxambomba era um arraial que passou a ter importância com a inauguração da estrada de ferro. Os rios foram abandonados como via de escoamento e transporte”, conta Nogueira. 

O perfume dos laranjais

Em 1910, com o declínio do café, o governo federal criou um plano de incentivo ao plantio de laranjas na Baixada. Assim, o local se transformou em uma região repleta de laranjais. Eram tantos que o cheiro na época da florada fez com que a cidade ganhasse o apelido de “a cidade perfume”.

O ciclo da laranja terminou com a Segunda Guerra Mundial, quando os países da Europa, que eram os principais clientes, interromperam a compra. O período coincidiu com uma das mais severas secas do Nordeste e o grande fluxo da migração nordestina para o Rio, juntamente com a transferência de parte da população da capital, empobrecida pela guerra, para a Baixada.

Foi assim que, durante o governo Vargas, as áreas das antigas chácaras de laranja deram lugar a projetos habitacionais.

A Chegada da Dutra

A inauguração da Dutra marcou um novo ciclo de desenvolvimento para a região. “A abertura de vias teve dois momentos: um inspirado no que o Barão Haussmann fez na França, com os grandes bulevares, como a abertura da Avenida Central no Rio capital. Já a Dutra foi inspirada nas grandes highways norte-americanas. A Dutra já foi projetada para não passar no meio das cidades. Ela só passa no meio de cidades que, na época, eram lugarejos e que depois se desenvolveram. Você vê que ela não passa no centro de Nova Iguaçu”, diz.

A modernização não para

A ligação da CCR NovaDutra com a Baixada Fluminense próxima. Além de passarelas e viadutos, foram construídos 28,6 quilômetros de pistas marginais. E só no primeiro semestre de 2020, as prefeituras dos oito municípios da Baixada Fluminense cortados pela Dutra receberam mais de R$ 4 milhões da concessionária referentes ao ISSQN. A fatia que coube à Nova Iguaçu foi de R$ 1.038.214,10. O que podemos dizer é que a Dutra é descendente direta do Caminho Novo e da Estrada Real do Comércio e, assim como essas duas rotas, deixa sua marca e influência na região. Pela Dutra, na região da Baixada, circula, atualmente, grande parte da produção nacional. E a história não para.