A fé que viaja pela Dutra

A fé que viaja pela Dutra

Seguindo pela Dutra, um automóvel leva cerca de 30 minutos para percorrer os 33 quilômetros que separam as cidades de Aparecida e Cachoeira Paulista. No trecho, o motorista vai encontrar pelo menos três motivos para estacionar o carro: a Basílica Nacional, em Aparecida; o circuito de Frei Galvão, em Guaratinguetá; e a comunidade Canção Nova, em Cachoeira Paulista. Os três lugares são as principais atrações do Circuito da Fé, um dos destaques do Vale do Paraíba. O “Histórias da Dutra” foi conhecer cada um deles. 

Aparecida: a atração principal 

Maior centro de peregrinação religiosa da América Latina e um dos principais destinos católicos do mundo, a Basílica de Nossa Senhora Aparecida (que pode ser avistada a partir da Dutra) é a principal atração do Vale da Fé, como também é conhecido o conjunto de cidades com atrações ligadas à religiosidade.

Na cidade, tudo gira em torno da devoção à santa. A imagem de Nossa Senhora da Conceição foi encontrada em 1717 no Rio Paraíba do Sul. Era um dia ruim de pesca, mas depois que a imagem foi retirada da água com a rede, o barco ficou pequeno para tanto peixe. Aquele foi o primeiro milagre atribuído à santa, que transformou a cidadezinha em um polo de peregrinação católica. Multidões passaram a frequentar o lugar, em busca de graças.

A “Nossa Senhora da Conceição aparecida nas águas do rio” acabou consagrada Padroeira do Brasil. E a imagem em terracota, retirada do rio pelos pescadores há mais de 300 anos, permanece em um oráculo incrustado numa das paredes da Basílica.

Os católicos chegam do Brasil todo para ver a imagem de perto. Passam pela Sala dos Votos, conhecem a Sala das Velas e, fora do templo, buscam um tempinho para conhecer a antiga igreja matriz, o Morro do Cruzeiro e o Porto Itaguaçu (local exato onde a imagem foi encontrada). 

Em 2019, Aparecida recebeu cerca de 12,6 milhões de visitantes. A pandemia de 2020 afetou o turismo religioso, claro, mas a visitação à cidade vinha crescendo ano a ano ao longo da última década.

Religião e turismo se tornaram o carro-chefe da economia da cidade. De acordo com a Secretaria Municipal de Turismo, Aparecida tem 40 mil leitos para pernoite na rede hoteleira. Mais que a própria população da cidade (36 mil habitantes). 

Nos últimos dez anos, o turismo passou a ser tratado de maneira profissional. A direção do santuário firmou parcerias com a iniciativa privada. Todo o entorno do tempo passou a concentrar uma série de atrações e eventos. Pelos contratos, as empresas instalam a estrutura, as operam, e após período determinado transferem a expertise para a Igreja.

É como explica Fábio Cardoso, sócio da Lótus Implantação de Projetos.  Surgiu empreendimento como a Cidade do Romeiro, a 700 metros da Basílica Nacional, no espaço onde antes funcionava o Magic Park. O complexo turístico-religioso que recebeu investimentos da ordem de R$ 60 milhões. Há lojas, lanchonete, restaurante e até um hotel, o Rainha do Brasil, com 330 apartamentos, e padrão 4 estrelas. 

Investidores catarinenses financiaram um teleférico, com 47 bondinhos que percorrem os 1.100 metros entre o santuário e o Morro do Cruzeiro, passando sobre as pistas da Via Dutra, a 120 metros de altura.

Da Cidade do Romeiro também parte o monotrilho que leva o turista até o Porto Itaguaçu (local exato onde a imagem da santa foi encontrada). O circuito tem 1,2 km de extensão, decorados com 128 esculturas em 20 cenários. Normalmente o visitante faz o caminho a pé e volta no monotrilho. A composição principal remete a uma locomotiva.

“Estamos pensando em construir no Porto Itaguaçu uma vila temática de pescadores, na qual reproduziremos a história de como a imagem de Nossa Senhora foi encontrada”, conta Cardoso. 

Os investimentos buscam mudar o perfil da visitação à cidade. De acordo com o representante dos investidores, se procura seguir os conceitos dos grandes parques temáticos do mundo, que estão sempre oferecendo novidades para conquistar os visitantes. Lugares onde tudo parece novo a cada manhã. “O grande desafio de Aparecida hoje é levar o visitante perceber que um dia é pouco para conhecer todas as atrações”, resume. “Nosso trabalho é fazer com que as pessoas que têm disponibilidade de vir à Aparecida durante a semana fiquem mais tempo na cidade.”

No começo de 2020, por exemplo, foi lançado o projeto “Descubra Aparecida”, com o objetivo de promover as práticas receptivas na região por meio de atividades de capacitação e fortalecimento do turismo. 

Com os investimentos privados, Aparecida passou a buscar um novo público de visitantes. Hoje, existe na cidade o modelo conhecido como “excursionista”. “É aquela visitação ‘bate-e-volta’. A grande maioria dos católicos chega às 6 da manhã para assistir a primeira missa e vai embora na última”, explica a turismóloga e consultora de negócios do Sebrae-SP Sâmia Borges.  Agora, a proposta é incentivar o turismo: manter o visitante da cidade por dias, movimentando a economia local. 

Guaratinguetá: na rota de Frei Galvão 

Ao longo do tempo, enquanto Aparecida recebia milhões de turistas por ano, Guaratinguetá estava ali, quietinha, a apenas oito quilômetros de distância. Aparecida, aliás, está em uma região que pertencia a Guaratinguetá quanto a imagem foi encontrada, lá em 1717. O vilarejo cresceu, se emancipou, se tornou atração turística nacional. 

Mas a situação de Guaratinguetá começou a mudar no final do século passado. Em 1997, o filho mais ilustre da cidade, Antônio de Sant'Anna Galvão – ou Frei Galvão – foi beatificado pelo papa João Paulo II.

A notícia correu o país e colocou Guará e seu personagem religioso em evidência. Aumentou o número de visitas à cidade. E o fluxo cresceu exponencialmente dez anos depois, quando o papa Bento XVI santificou Frei Galvão.

A partir da beatificação, começou a haver uma conscientização sobre a importância do turismo religioso. “Começamos a divulgação em Aparecida, pois até então não se falava de Frei Galvão”, conta Patrícia Gonçalves, guia especializada em turismo religioso. 

Hoje a cidade recebe cerca de 700 mil turistas por ano. Pode parecer pouco se comparado com Aparecida, mas sejamos justos: qualquer número parece modesto perto de 13 milhões de visitantes/ano. Para se ter uma ideia, o Cristo Redentor, com sua fama internacional de cartão postal do Rio de Janeiro e do país, foi visitado por 1,9 milhão de turistas em 2019. 

Guaratinguetá – o nome significa “muitas garças brancas” em tupi – tem localização privilegiada. Fica às margens da Dutra, ligação entre São Paulo e o Rio, e tem acesso direto às serras da Bocaina e da Mantiqueira, além da cidade histórica de Paraty. 

Durante séculos, a cidade esteve na rota do ouro, do diamante e dos tropeiros. Hoje a cidade, com 122 mil habitantes, vai se tornando um polo industrial importante, mas o turismo religioso ganha corpo a cada dia. 

A peregrinação começa pela igreja de Santo Antônio, o padroeiro da cidade. O templo foi erguido em 1630. Lá Frei Galvão foi batizado, em 1739, e rezou sua primeira missa, em 1762. Na parte superior da construção funciona a Irmandade de Frei Galvão, responsável pela confecção das famosas pílulas de Frei Galvão, que são distribuídas em locais específicos: ali mesmo na Matriz de Santo Antônio, no seminário, no santuário e na Fazenda Esperança (famosa comunidade terapêutica que, desde 1983, acolhe usuários de drogas para reabilitação). 

E cumprir o roteiro pela cidade é uma experiência muito agradável. Da Matriz, o visitante segue a pé até a Casa de Frei Galvão, localizada a poucos metros. Reconstruída em 1989, na comemoração dos 250 anos de nascimento do agora santo, o sobrado de esquina abriga mobília, fotos, documentos e obras de arte sobre a vida de Frei Galvão.

Logo em frente, do outro lado da rua, está o Memorial Frei Galvão. A casa, que também foi reconstruída pelos descendentes da família, guarda os objetos de devoção, como fitas, velas e peças de vestuário.

No local há uma estátua em tamanho natural do santo (1,80 m), na qual está inscrita a frase da famosa pílula de Frei Galvão, Dei Genitrix intercede pro nobis (“Mãe de Deus, intercedei por nós”).

O quarto local do roteiro de visitação é o Santuário Frei Galvão, erguido nas terras de um antigo sítio onde havia uma pequena capela dedicada a São José. O templo atual comporta 700 pessoas e tem planos para crescer ainda mais. “Aqui o turista fica de 15 a 40 minutos. Um dos meus objetivos é fazer com que ele passe mais tempo aqui dentro”, explica o padre José Carlos de Melo, reitor do santuário. 

O padre tem consciência do quanto o turismo religioso ainda depende de Aparecida. “Costumo dizer que a locomotiva, a que atrai de verdade, é Aparecida. Frei Galvão e Canção Nova são os vagões”, compara. 

Sua ideia é mostrar que Frei Galvão vai muito além das pílulas. “Estamos pensando em trabalhar o lado histórico do santo: a devoção à Imaculada, a questão da caridade e a questão da missionaridade.” 

O circuito se completa com a visita ao Seminário Frei Galvão. Fundado em 1942 pelos monges franciscanos, mesma ordem do frei, é um lugar silencioso e tranquilo, praticamente uma antítese da ideia de turismo de massa. Com o aumento da visitação, o seminário começou a abrir para distribuição das pílulas, mas há ações de acolhimento e momentos de oração. Circulam por ali de 7 mil a 8 mil visitantes por mês, e metade dos custos de manutenção é pago pelas visitas. 

O governo municipal sabe que o turismo religioso é essencial para a economia local e, nos últimos tempos, investiu em melhorias para o acolhimento e o conforto dos visitantes. Foi criado, por exemplo, o Centro de Recepção ao Turista, que foi revitalizado com a criação do calçadão. A prefeitura também investiu na recuperação de pontos com grande potencial de visitação, como o histórico Mercado Municipal e a charmosa Estrada Cênica Bairro do Gomeral, que atravessa as paisagens belíssimas da zona rural, Mantiqueira adentro, em direção a Campos do Jordão. 

Cachoeira Paulista: o poder da comunicação 

Não é de hoje que religiões de vários matizes tomaram consciência que para evangelizar é preciso comunicar bem. No caso da Canção Nova, esse raciocínio é parte de sua essência. “A comunicação é o sangue na veia da Canção Nova”, define Filipe Garcez Jardim, vice-presidente do Conselho Deliberativo da Fundação João Paulo II/Canção Nova.

A comunidade nasceu em 1978, na cidade vizinha de Lorena, por iniciativa do padre Jonas Abib. Anos depois, mudou-se para Cachoeira Paulista ao adquirir a antiga Rádio Bandeirantes e transformá-la em Rádio Canção Nova. Há 25 anos foi criada a TV Canção Nova, que tem aproximadamente 780 retransmissoras no Brasil – é a quarta em rede de retransmissão no país. O complexo de comunicação também tem um site bastante ativo.

Quanto às instalações, pode-se dizer que a Canção Nova é uma cidade dentro da cidade: é um complexo de mais 370 mil m2, composto pelo Santuário Pai das Misericórdias, com capacidade para 5 mil pessoas (de onde missas são transmitidas ao vivo diariamente), o Centro de Evangelização para 80 mil fiéis, pousada com 1.200 leitos, refeitório e lanchonete. Há eventos ali que chegam a reunir até 70 mil pessoas em um fim de semana.

Atualmente a comunidade é o principal motor da economia na região. “A Canção Nova gera 1.800 empregos diretos em Cachoeira Paulista. Hoje você não encontra uma casa de aluguel em Cachoeira. Praticamente quem tinha casa virou pousada. Indiretamente podemos falar em 8 mil pessoas trabalhando com o turismo”, contabiliza Jardim. Ele faz questão de salientar que a Dutra sempre foi uma parceira da Canção Nova. Cita como exemplo a construção, em 2010, do trevo no Km 38, que desafogou o trânsito criado pelos fiéis ao atravessar a cidade.

Sâmia Borges, do Sebrae, também destaca a importância da Dutra para o turismo religioso: “Quanto mais acesso você tem, maior a probabilidade de desenvolver o turismo. E quer uma rodovia com infraestrutura melhor do que a Dutra? A Dutra é um tapete para o romeiro nessa época. Pela imagem de credibilidade que ela tem, ela complementa a atratividade do destino.”